Eu não tive crise dos 30. Tive, sim, uma crise quando completei 25 anos. Mas aos 30 eu só queria ver o retorno de Saturno acabar e me devolver para o meu eixo. Nada demais. Só que parece que agora estou tendo a crise dos 35. Ando tão esquisitinha. Descolada do mundo.
OK, essa sensação de I don't belong here é minha velha conhecida. Vai e volta com frequência. Nem sei porque eu ainda me dou conta que ela existe. Mas o problema é que estou triste sem motivo e além da conta.
Tenho a nítida sensação de que estou exagerando no autoboicote, mas não tenho conseguido mudar isso. Levanto cedo pensando que preciso reagir, sair da mesmice, mudar o que me incomoda, mas até o meio do dia já voltei para a falta de perspectiva. Luto diariamente contra meu desânimo. Sei, os dias frios não estão ajudando. Mas não é só isso. É um olhar para trás e pensar: e aí, fiz o que de bom em 35 anos?
Quase nenhuma das minhas metas traçadas naquela crise de dez anos atrás foi cumprida. Não sou nem de perto a profissional que gostaria de ser. Eu me tornei outra pessoa de lá para cá, um pouco menos ansiosa, mas tão insegura quanto.
Vendo mais uma crise no jornalismo, penso se fiz uma boa escolha nas minhas duas opções profissionais. Sim, escrever é o que eu gosto de fazer para viver, mas o quanto já me distanciei do propósito original? E o propósito original hoje me faria feliz?
Essa é a questão no centro da crise: o que me faz feliz? Feriado com o marido, caminhadas na Ilha Grande, conversas com as amigas, comida gostosa... Tudo isso me faz feliz. Mas sinto que a minha tristeza está ligada à falta de sucesso profissional. E o que me realizaria profissionalmente? Será possível que algum dia eu poderei ver com bons olhos algum trabalho que fiz? Não sei. Acho que no campo profissional sempre serei extremamente crítica. Tenho a impressão que nunca farei algo que valha.
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