segunda-feira, 30 de julho de 2012

Medo do sucesso

Muito mais que o fracasso, é o sucesso que me apavora. Ao fracasso já estou acostumada. Desde sempre lido com ele. É minha zona de conforto. Sem contar que fazer papel de vítima sempre é mais fácil. As pessoas se compadecem dos sofredores.

Veja a novela, por exemplo. Espectadores de Avenida Brasil já começam a ter dó da vilã Carminha, que depois de cem capítulos de maldades está provando do próprio veneno há uma semana. É suficiente para terem raiva de Rita, que desde de sempre é a verdadeira vilã da novela (quem acompanha o trabalho de João Emanuel Carneiro sabia desde o começo que o jogo ia virar).

Mas o sucesso, além de ser novidade, é mais arriscado. Quando se é perdedor, uma vitória ou outra é apenas um golpe de sorte e facilmente se volta ao limbo. Mas quando se é vencedor, com todos os holofotes voltados para si, uma derrota é suficiente para minar o trabalho todo. É como se todos, inclusive você mesmo, estivesse esperando um deslize para dizer: "viu? Eu disse que era uma fraude".

terça-feira, 24 de julho de 2012

Uma só adversária

Este ano participei de uma prova que tinha como slogan "Milhares de inscritos, um só adversário". A Mizuno 10 Miles, que aconteceu em abril, tinha um percurso de 16 km (como o próprio no me já diz) e foi usada por mim como treino para a Meia Maratona, que fiz no começo deste mês. Durante a corrida, o slogan se mostrou muito mais que verdadeiro. Eu fui o único obstáculo que tive de enfrentar na prova.

Minha minhocasa reagiu de maneira errada ao ouvir pelo iPod as mesmas músicas que tocaram na minha primeira prova de 16 km (cujo perrengue está descrito no post Acontecimentos inspiradores logo abaixo deste). Só que quando eu vi que minha mente estava no modo auto-boicote, eu reprogramei meus pensamentos. Troquei as músicas para a seleção nova que tinha feito uns dias antes e relembrei que, desta vez, diferentemente da outra, eu tinha feito tudo certinho no dia anterior, então não havia motivo algum para passar mal.

Na vida profissional, vira e mexe, eu também deixo o modo auto-boicote ligado. Sempre que me envolvo em algum projeto novo bacana, eu sinto que vou fazer algo para estragar tudo. Ouço até uma voz dizendo: você sempre estraga tudo. Só que a vantagem de fazer terapia desde os 16 anos é que as armadilhas do inconsciente passam a ser mais facilmente identificadas. E fica bem mais óbvio de perceber que eu estou sendo minha única adversária.

Então, como fiz na tal prova de abril, eu troco a seleção musical, relembro porque eu sou capaz de fazer tal trabalho e dou o meu melhor para ter um bom resultado. Não vou mentir. Até que eu receba um elogio _ou que passe alguns dias sem ouvir reclamação, ao menos_, eu ainda acho que ele foi mal feito, mas ao menos agora eu não desisto antes de terminar com medo de ter um resultado ruim.

Tenho minhas dúvidas se um dia vou conseguir não ter essa insegurança, mas dizem que quando a gente conhece o inimigo fica mais fácil vencê-lo. Espero.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Acontecimentos inspiradores

Não é novidade para ninguém que me conhece que eu sofro de baixa auto-estima. Não importa o que preciso fazer, eu sempre acho, pelo menos por alguns minutos, que eu não vou dar conta. É assim com tudo e, quando se trata de trabalho, esse medo ganha proporções bem maiores.

Para tentar vencer o medo do fracasso, por anos, eu mantenho como exemplo na cabeça uma situação extrema que prova que no fim tudo acaba bem. Lá no fim do século passado, uma noite, quando eu me preparava para deixar a redação, o editor me chamou para pedir um favor. As repórteres que cobriam o caso Leandro estavam exaustas porque vinham se revezando na porta do hospital há mais de uma semana. Ele queria que eu ficasse lá, só até o fechamento, para cobrir caso houvesse alguma novidade.

Era a primeira vez que eu saía para uma reportagem quente. Até então só tinha feito entrevistas para matérias frias, daquelas que normalmente preenchem as páginas dos cadernos de variedades. Lá fui eu, acompanhada de um fotógrafo bem mais experiente que eu (que depois apelidei de companheiro de roubadas porque sempre que a gente saía juntos a pauta virava algum monstro).

Eu deveria ficar no hospital até umas 22h, mais ou menos. Mas lá pelas 21h, começou uma movimentação esquisita. Para mim, aquilo tudo era esquisito já que eu nunca tinha feito cobertura em porta de hospital, mas algo me dizia que tinha alguma coisa acontecendo. Lembro do meu desespero ao ligar para o editor e tentar convencê-lo de que aquilo não era o normal, já que ele sabia que eu não tinha ideia de como era o normal da coisa. Algumas horas depois, veio a notícia: o cantor havia morrido.

Eu que nunca tinha feito nenhuma matéria de mais de 10 cm, já que eu era redatora das seções fixas do caderno, me vi tendo que passar informações para a manchete do jornal. Como era muito tarde, a informação saiu apenas em uma tarja preta na capa.

Passei a madrugada cobrindo o ocorrido, fui direto para o velório na Assembleia Legislativa e, no meio da manhã, um outro repórter foi me render. Voltei para a redação, escrevi o que tinha de escrever e saí de lá às 13h, 24 horas depois de ter começado a trabalhar.

E sobrevivi. Pode não ter sido a melhor cobertura, mas não ficou devendo em nada para as outras. E desde então, quando bate o pânico de não dar conta, eu penso que nada pode ser pior que esta situação.

Mas o curioso é que, desde o ano passado, essa lembrança ganhou a companhia de outra situação extrema: correr 10 milhas (o equivalente a 16 km) com dor de bariga. Eu inventei de fazer a minha estreia em uma distância maior que 10 km um dia depois de ter ido a uma festa de aniversário.

Lá pelo quilômetro 4, minha barriga começou a dar sinais de que precisava de um banheiro. Detalhe: Na pista expressa da marginal Pinheiros não há banheiros. Corri 4 km com a esperança de que no extremo do percurso teriam banheiros químicos. Qual não foi meu desespero ao descobrir que só havia uma ambulância. Ou seja, numa corrida é melhor ter um infarto do que um piriri.

Comecei a andar, a chorar, a rezar... Não podia acreditar que chegaria em casa e diria ao marido: não terminei a corrida porque não tinha banheiro. No meio das minhas preces, lá pelo km 12, avistei um posto de gasolina e um agente da CET. Não tive dúvida: "moço, por favor, me ajuda a atravessar para eu ir ao banheiro ou não vou terminar a prova". O marronzinho parou a via local da marginal e eu atravessei em direção à privada mais próxima.

Na volta, corri feliz os 4 km que faltavam e terminei a prova em menos de duas horas. O perrengue me ensinou ao menos duas coisas. Primeiro que brigadeiro é proibido na véspera de provas longas e também que eu posso muito mais do que eu acho que posso. Nunca acreditei que um dia correria 16 km, quanto mais sem condição física para isso.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Idade da falta de paciência

Não é só a barriga que cresce depois dos 30. A impaciência também. Não aquela impaciência ansiosa dos primeiros anos após a adolescência, que faz a gente querer ser um profissional bem sucedido em cinco anos de empresa. Não, essa fica lá nos 25, depois da maldita crise que faz você perceber que é um fracassado. Mas a da idade adulta é uma impaciência intolerante.

Atualmente, sinto como se as chatices não tivessem mais espaço para se instalar na minha vida. É quase um retorno de Saturno (hum, acho que era o caso de consultar um astrólogo para ver por onde esse maldito planeta anda). Estou sem paciência nenhuma para o amadorismo e para o discurso do marketing, que morre depois do almoço com os jornalistas e nunca é posto em prática nas empresas.

Talvez eu seja ingênua a ponto de achar que as pessoas deveriam ser mais sinceras. Seria bom que os empregadores contassem a realidade sobre as empresas e que, ao contratar alguém, convidasse o profissional a ajudar a empresa evoluir. "Temos estes problemas e você pode nos ajudar a resolvê-los" não deixaria de ser um bom discurso de marketing e seria muito melhor do que fingir uma situação ideal que não existe.

Só que o que acaba acontecendo muitas vezes é que, quando o profissional chega para assumir seu posto, depois da entrevista fantasiosa, ele encontra algo bem diferente do esperado e, muito frequentemente, também se depara com um monte de gente tradicionalista, nada interessada em transformar a realidade atual naquela do discurso da empresa. Pronto, se esse proletário, como eu, tem mais de 30 anos, vem a impaciência. Temos um profissional decepcionado e, consequentemente, desmotivado.

E quem alimenta essa irritação é justamente a bagagem de chatices suportadas no passado. Ok, tudo bem, a gente tem de aguentar um problema aqui e outro lá, um chefe egocêntrico de vez em quando, um pouco de falta de estrutura, aceitar alguém que grite o tempo todo porque tem a síndrome do pequeno poder um dia ou outro... Mas vai ser sempre assim?

O problema desta impaciência pós-30 é que ela vem com um sentimento de culpa. Afinal, a vida é feita de adversidades e eu não tenho mais idade para ser mimada assim. O Grilo Falante na minhocasa diz: "engole o choro e trabalha". Mas, quer saber?, minha vontade é chegar na próxima entrevista de emprego e dizer: "o que a sua empresa tem para oferecer para minha carreira?".

terça-feira, 3 de julho de 2012

A vida feita de desencontros

Ultimamente, como não poderia deixar de ser, tenho pensado muito na minha vida profissional. O desemprego faz isso com a gente. É tempo de pesar as escolhas feitas no passado, sonhar com um futuro mais promissor e esperar ter boas propostas no presente.

Reparei, há alguns dias, que existe uma certa semelhança entre a vida profissional adulta e a vida amorosa adolescente. O mundo é feito de desencontros: quem eu quero não me quer, quem me quer eu não quero.

Lá nos anos 90, eram assim os meus (não)romances. Os caras por quem eu era apaixonada não queriam nem saber de mim. Alguns (como boa geminiana eu tinha uma nova paixão por mês), inclusive, nem sabiam meu nome. Os poucos (se eu sou estranha aos 34 anos, imaginem com 16... Com "poucos" eu quero dizer muito poucos, pouquíssimos) que se interessavam por mim, não tinham a minha admiração.

E assim eu sobrevivi àqueles anos sombrios. O que me dá esperança. Nem foi tanto tempo até eu me apaixonar por alguém apaixonado por mim. Quer dizer, agora eu digo isso. Na época, parecia bem uma eternidade.

O ciclo se repete agora. Só que na vida adulta, ele acontece no campo profissional. Estou aqui esperando que aquela empresa bacana (ou ao menos uma daquelas que eu tenho na minha lista de "lugares possíveis para vender a força de trabalho") se apaixone por mim. Ou que eu me apaixone por uma dessas poucas que me querem. E olha que as empresas que me querem são em número muito menor que os meninos da adolescência.