Não é só a barriga que cresce depois dos 30. A impaciência também. Não aquela impaciência ansiosa dos primeiros anos após a adolescência, que faz a gente querer ser um profissional bem sucedido em cinco anos de empresa. Não, essa fica lá nos 25, depois da maldita crise que faz você perceber que é um fracassado. Mas a da idade adulta é uma impaciência intolerante.
Atualmente, sinto como se as chatices não tivessem mais espaço para se instalar na minha vida. É quase um retorno de Saturno (hum, acho que era o caso de consultar um astrólogo para ver por onde esse maldito planeta anda). Estou sem paciência nenhuma para o amadorismo e para o discurso do marketing, que morre depois do almoço com os jornalistas e nunca é posto em prática nas empresas.
Talvez eu seja ingênua a ponto de achar que as pessoas deveriam ser mais sinceras. Seria bom que os empregadores contassem a realidade sobre as empresas e que, ao contratar alguém, convidasse o profissional a ajudar a empresa evoluir. "Temos estes problemas e você pode nos ajudar a resolvê-los" não deixaria de ser um bom discurso de marketing e seria muito melhor do que fingir uma situação ideal que não existe.
Só que o que acaba acontecendo muitas vezes é que, quando o profissional chega para assumir seu posto, depois da entrevista fantasiosa, ele encontra algo bem diferente do esperado e, muito frequentemente, também se depara com um monte de gente tradicionalista, nada interessada em transformar a realidade atual naquela do discurso da empresa. Pronto, se esse proletário, como eu, tem mais de 30 anos, vem a impaciência. Temos um profissional decepcionado e, consequentemente, desmotivado.
E quem alimenta essa irritação é justamente a bagagem de chatices suportadas no passado. Ok, tudo bem, a gente tem de aguentar um problema aqui e outro lá, um chefe egocêntrico de vez em quando, um pouco de falta de estrutura, aceitar alguém que grite o tempo todo porque tem a síndrome do pequeno poder um dia ou outro... Mas vai ser sempre assim?
O problema desta impaciência pós-30 é que ela vem com um sentimento de culpa. Afinal, a vida é feita de adversidades e eu não tenho mais idade para ser mimada assim. O Grilo Falante na minhocasa diz: "engole o choro e trabalha". Mas, quer saber?, minha vontade é chegar na próxima entrevista de emprego e dizer: "o que a sua empresa tem para oferecer para minha carreira?".
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