Tem dias que acordo sem forças, com a sensação de confusão mental. Muitos pensamentos ao mesmo tempo, nenhum completo, nada definido. Na cabeça, há um amontoado como aquela massinha de modelar do espaço infantil do shopping no fim do dia. Sem cor definida, cheia de pedaços de sabe-se lá o quê.
Dias frios têm essa influência sobre mim. De repente, me dou conta de que é um esforço até respirar. Custa para o ar entrar. Dói quando ele passa pelas narinas. O peito está sem espaço para ele chegar. Apertado.
Sair da cama leva muito mais tempo que o normal. O café da manhã, atônito, demora. Quando vejo, já é hora de estar no ponto de ônibus e eu ainda estou com a xícara quase cheia nas mãos e o pão mordido, pela metade.
Sim, em dias assim, só a escrita me salva. Deve fazer uns 20 anos que descobri o poder que transformar pensamentos disformes em textos escritos têm sobre mim. Estava saindo da minha primeira grande crise de depressão. De repente, percebi que aquilo tudo que estava na minha cabeça precisava sair de alguma forma.
Peguei um caderninho que havia ganhado no meu aniversário de 15 anos. Tinha uma linda bruxinha na capa, lembrando meu apelido na escola. O primeiro texto retratava meus medos. Não lembro bem ao certo o que dizia, mas recordo que fiz questão de falar do meu medo de fogo. Fobia que tenho até hoje e nunca fui atrás de resolver (afinal, por que raios tenho de perder o medo do fogo? Só se eu quisesse ser bombeira, mas não vem ao caso).
Desde aquele, foram vários caderninhos. Uns seis ou sete. Até que a internet nasceu e com ela os blogs. Desde então, é nestes sites com pouquíssimos acessos que discorro sobre meus medos. E agora me dei conta de que, no fim, percebo que todos os meus textos são como aquele primeiro. Sobre meus medos.
Recentemente descobri que, quando era repórter, um assessor de imprensa, antes de me ligar, olhava meu blog para saber que humor esperar de mim. É, essa sou eu. Transparente nas páginas que escrevo. Estou inteira aqui. E só assim sigo em dias como hoje.
Às vezes, é preciso parar o trabalho no meio, esvaziar as emoções e voltar para o centro. Sem esse recurso, com certeza já teria enlouquecido. Desculpe, preciso escrever.
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