quarta-feira, 18 de julho de 2012

Acontecimentos inspiradores

Não é novidade para ninguém que me conhece que eu sofro de baixa auto-estima. Não importa o que preciso fazer, eu sempre acho, pelo menos por alguns minutos, que eu não vou dar conta. É assim com tudo e, quando se trata de trabalho, esse medo ganha proporções bem maiores.

Para tentar vencer o medo do fracasso, por anos, eu mantenho como exemplo na cabeça uma situação extrema que prova que no fim tudo acaba bem. Lá no fim do século passado, uma noite, quando eu me preparava para deixar a redação, o editor me chamou para pedir um favor. As repórteres que cobriam o caso Leandro estavam exaustas porque vinham se revezando na porta do hospital há mais de uma semana. Ele queria que eu ficasse lá, só até o fechamento, para cobrir caso houvesse alguma novidade.

Era a primeira vez que eu saía para uma reportagem quente. Até então só tinha feito entrevistas para matérias frias, daquelas que normalmente preenchem as páginas dos cadernos de variedades. Lá fui eu, acompanhada de um fotógrafo bem mais experiente que eu (que depois apelidei de companheiro de roubadas porque sempre que a gente saía juntos a pauta virava algum monstro).

Eu deveria ficar no hospital até umas 22h, mais ou menos. Mas lá pelas 21h, começou uma movimentação esquisita. Para mim, aquilo tudo era esquisito já que eu nunca tinha feito cobertura em porta de hospital, mas algo me dizia que tinha alguma coisa acontecendo. Lembro do meu desespero ao ligar para o editor e tentar convencê-lo de que aquilo não era o normal, já que ele sabia que eu não tinha ideia de como era o normal da coisa. Algumas horas depois, veio a notícia: o cantor havia morrido.

Eu que nunca tinha feito nenhuma matéria de mais de 10 cm, já que eu era redatora das seções fixas do caderno, me vi tendo que passar informações para a manchete do jornal. Como era muito tarde, a informação saiu apenas em uma tarja preta na capa.

Passei a madrugada cobrindo o ocorrido, fui direto para o velório na Assembleia Legislativa e, no meio da manhã, um outro repórter foi me render. Voltei para a redação, escrevi o que tinha de escrever e saí de lá às 13h, 24 horas depois de ter começado a trabalhar.

E sobrevivi. Pode não ter sido a melhor cobertura, mas não ficou devendo em nada para as outras. E desde então, quando bate o pânico de não dar conta, eu penso que nada pode ser pior que esta situação.

Mas o curioso é que, desde o ano passado, essa lembrança ganhou a companhia de outra situação extrema: correr 10 milhas (o equivalente a 16 km) com dor de bariga. Eu inventei de fazer a minha estreia em uma distância maior que 10 km um dia depois de ter ido a uma festa de aniversário.

Lá pelo quilômetro 4, minha barriga começou a dar sinais de que precisava de um banheiro. Detalhe: Na pista expressa da marginal Pinheiros não há banheiros. Corri 4 km com a esperança de que no extremo do percurso teriam banheiros químicos. Qual não foi meu desespero ao descobrir que só havia uma ambulância. Ou seja, numa corrida é melhor ter um infarto do que um piriri.

Comecei a andar, a chorar, a rezar... Não podia acreditar que chegaria em casa e diria ao marido: não terminei a corrida porque não tinha banheiro. No meio das minhas preces, lá pelo km 12, avistei um posto de gasolina e um agente da CET. Não tive dúvida: "moço, por favor, me ajuda a atravessar para eu ir ao banheiro ou não vou terminar a prova". O marronzinho parou a via local da marginal e eu atravessei em direção à privada mais próxima.

Na volta, corri feliz os 4 km que faltavam e terminei a prova em menos de duas horas. O perrengue me ensinou ao menos duas coisas. Primeiro que brigadeiro é proibido na véspera de provas longas e também que eu posso muito mais do que eu acho que posso. Nunca acreditei que um dia correria 16 km, quanto mais sem condição física para isso.

Um comentário:

  1. Querida,
    Texto maravilhoso, conteúdo absolutamente necessário ser lido e compartilhado.
    É uma grande alegria e super orgulho ser sua amiga há tantos anos!
    Te amo.
    Beijocas,
    De.

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